Aquele choro incontido em meu quarto que viemos a saber que era da dona Leonor, foi por que neste dia, as pessoas fizeram uma corrente pedindo a ajuda de todas as mães desencarnadas para não me desamparar na cirurgia e ela sem poder ajudar só chorava!
Numa UTI quando se está internado, não se sabe quando é noite e quando é dia, pois as luzes ficam acesas todo o tempo, para mim era sempre manhã eu ainda estava muito sedado, dormia e acordava ao acordar no início, via sempre minhã irmã ou a Mariângela ao meu lado, lado direito da cama, eu achava que elas não dormiam pois estavam sempre a postos. São grandes guerreiras, grandes mulheres eu as amo!
Betinho e o Bruno estavam sempre lá também, me dando passes, orando e me ajudando através de palavras, são dois caras fenomenais, eu tenho muita sorte por ter tido a chance de fazer parte da família deles! Deus, o grande arquiteto do universo me abençoou novamente, ao pôr essa família maravilhosa em meu caminho!
Acordei em um determinado momento e vi o Mário e a Mariângela na minha suite (rs), ele havia abdicado das férias e voltado para São Paulo, fiquei feliz em vê-lo, fiquei mais fortalecido. minha família estava completa e na luta por mim. Eu já estava a alguns dias na UTI e as horas davam a impressão de não passarem, era um cu, tamanha morosidade, aí...
Deu a primeira merda! Eu estava entubado, quando tentaram me destubar, tive uma pneumonia, me entubaram novamente, tentaram após alguns dias me destubar, tive mais uma pneumonia, meus pulmões não funcionavam os médicos então, resolveram fazer uma traqueostomia seletiva pois o meu pulmão estava cheio de secreção e meu estado de saúde piorava a cada dia, fodeu, parei de falar! Agora minha comunicação era só através de gestos e expressões, as pessoas que me acompanhavam, e ajudavam a cuidar de mim estavam fodidas, eu gesticulava, elas não entendiam e eu ficava puto! Quem mais se danava era a Mariângela coitada, passava por todo aquele estresse e ainda tinha que aturar a minha cara feia por ela não entender o que eu tentava expressar através de gestos. Ela teve então uma ideia genial que teria dado certo se eu não estivesse tão mal e tão sem articulação dos movimentos. Ela desenhou o alfabeto em letras garrafais e ai era só eu apontar letra por letra para formar a palavra e assim ela entender o que eu queria, mas os meus movimentos estavam sem controle, e eu não enxergava direito e assim caiu por terra essa ideia genial da minha heroína!
A Aspiração no início é horrível. Vou explicar para quem não sabe o que é. Consiste em enfiar um tubo ultra fino, mas nem tanto, através da cavidade aberta na traqueostomia em nossa garganta, bem na junção do tronco com o pescoço, esse tubo entra em nosso peito e vai até o pulmão e aspira a secreção ou catarro se assim preferirem, deixando o pulmão "limpo". É um procedimento, que no início dói e incomoda bastante, incomoda mais que dói digo eu, mas é necessário ser feito. Esse procedimento era feito cinco vezes por dia. Eu preferia que á noite ficassem comigo na UTI a Mariângela o Bruno ou o Betinho eu ficava mais seguro e aí numa dessas noites, deu a segunda merda! Por um motivo qualquer, não me aspiraram neste dia, eu por dentro fiquei super feliz, havia escapado desse suplício da aspiração, mas meu pulmão estava se enchendo de secreção, não conseguia respirar direito, fiz gestos para o Bruno e ele de imediato chamou um dos enfermeiros ele veio e disse que não era nada, que era assim mesmo, se aspirasse novamente poderia sangrar e me machucar internamente e saiu do quarto. Só que o coitado não sabia é que eu não tinha sido aspirado naquele dia, aí meus amigos, o ar parou de entrar nos pulmões e eu estaria morto se não fosse o Bruno que foi correndo até a equipe de plantão e falou que eu não estava mais conseguindo respirar, estava me debatendo sufocado! Entraram voando no quarto um caralhão de gente e começaram os procedimentos para me salvar! Teve um enfermeiro que eu jamais vou me esquecer dele, era um negão alto pra cacete, que pediu para as pessoas se afastarem e começou a aspiração, nossa ele demorou uma eternidade nesta aspiração, mas deixou o meu pulmão zeradinho, limpinho e sem nada de secreção. O Bruno por entender rápido o que estava ocorrendo e chamar correndo a equipe de enfermagem para me ajudar e esse enfermeiro pela destreza e a paciência me salvaram a vida! Quando eu pude falar, eu fiz a seguinte alusão a esse momento de angustia. Num drible tirei dois zagueiros da jogada e parti em direção ao gol, o goleiro saiu desesperado e eu dei um toque sútil por cima dele em direção ao gol e a bola caprichosamente bateu na trave! Ainda bem que o Bruno e o enfermeiro fizeram o gol por mim, (rs)! Se não eu estava fodido!
Queria fazer um adendo a equipe de enfermagem que trabalha na UTI do hospital, são ótimos, de zero a dez eu dou nota cem!Todos, todos fizeram o possível para salvar a minha vida e conseguiram.
Os enfermeiros me davam banho todos os dias com uma presteza e habilidade impressionante, faziam minha barba, passavam cepacol em meus dentes para tirar o mau hálíto e passavam desodorante, tudo isso era feito comigo deitado! Eu não me levantava ainda, essa galerinha do bem era foda, fiquei tão impressionado que até pensei em fazer um curso de enfermagem para homenagear estes excelentes profissionais, mas ficou só no pensamento.
Numa tarde, a doutora Mônica, chefe da UTI, falou com a Mariângela que iriam colocar uma sonda em minha barriga e eu iria me alimentar pro resto da vida por ali, achavam que o AVC havia comprometido a minha deglutição, por sorte o doutor Antonio não deixou, achou melhor esperar mais um tempo.
Comecei com muito custo a sentar na cama, pelo menos uma hora eu tinha que ficar sentado, ou na cama ou na poltrona que existia no quarto. Era um suplicio, não tinha forças para manter a cabeça ereta, eu ia escorregando na poltrona, ao trocar de posição de deitado pra sentado, me mijava todo, me cagava a cabeça doia era um inferno! Mas era obrigado a sentar, pois esta posição corporal, me ajudaria na respiração, não deixar dar água no pulmão, iria me obrigar a tentar manter o pescoço reto, e era a porta de saída da UTI.
Na UTI, minha irmã Teresa foi umas duas ou três vezes, foram só de UTI, dezenove dias, ela vinha a São Paulo para ficar revesando com a Mariângela e os meninos nesta minha estadia numa UTI. Meu cunhado Carlos foi primordial, primeiro em conversar com o doutor Antonio e passar as coisas mais simplificadas para as pessoas sem os termos médicos, isso ele estando no Rio e as coisas se desenrolarem em São Paulo e segundo, em ficar com as crianças enquanto minha irmã vivia na ponte aérea atras de mim.
Meu corpo começou a reagir, e pra melhor, já me sentavam sem eu reclamar, meus números começaram a melhorar nos diversos monitores que estavam colocados atras de mim e assim eu consegui sair da UTI! Era só esperar vagar um quarto para que eu pudesse finalmente ver outros ares e pessoas diferentes! A tarde, lá pra umas 16:00, me transferiram, saí da UTI, mas uma etapa vencida!
Chegando ao quarto me instalaram e saíram, minha esposa ligou a televisão e passava na HBO o filme "O Nosso Lar", caramba chego me arrepio ao lembrar.
Amanhã eu continuo...
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