sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

EXAME DE PRÓSTATA

  Era o maior homofóbico que se tinha notícia na face da terra, achava que homem era homem, e homem só podia se relacionar com mulher. Mulher com mulher para ele também não rolava e ponto final! Relacionamento entre amigos, tipo jogar futebol, tomar uma cerveja, paquerar a mulherada, beleza, mas só!
 Não quero me estender no assunto, mas cada um tem seu ponto de vista e temos que respeita-lo, afinal, o que seria do azul se todos gostassem do amarelo? Apesar que na minha humilde opinião as cores do arco-íris estão ganhando de goleada, já cheguei a achar que eu é que estou errado!
 Mas tirando essa homofobia, ele era um cara legal. Bom de conversa e tinha assunto para tudo, não era "instruído" na concepção de diploma pois não tinha um canudo de papel de conclusão de faculdade, o máximo que tinha chegado perto de uma faculdade era quando ia com sua esposa buscar os filhos matriculados em uma, mas é auto didata, segundo ele, aprendeu com a vida.
Todos gostavam de conversar com o "cidadão" em questão, mas quando a conversa ia para o lado do sexo entre iguais... A coisa esquentava, pois Rodolfo não aceitava de forma alguma, a conversa deixava de ser conversa e virava um discurso vigoroso e clamoroso, uma discussão para ser mais exato!
 Rodolfo falava seguidamente quase como uma oratória sem dar chance para as pessoas envolvidas na conversa emitirem a sua opinião! Parecia um candidato em horário político na tv! Inflamado dando o seu discurso sem direito à réplica ou à treplica. Não parava de falar nem para molhar o "bico", pois não queria perder o fio da meada e nem dar chance de ser interrompido! Xingava uma emissora, por que em uma de suas novelas expôs esse assunto mais a fundo! Reality Show's eram como se fosse o "demo" para ele, pois viu alguns capítulos e ficou sabendo que uma morena de "fechar o comércio", não era "ela" era "ele"! Nossa como Rodolfo xingava e mal dizia!
  A sua preocupação maior eram os filhos, que segundo ele poderiam ver uma coisa desta e achar que é "normal", e para Rodolfo isso era coisa do "coisa ruim", do tinhoso. Coitado, tantas atrocidades que passam na televisão, que estas sim, podiam influenciar seus filhos e Rodolfo preocupado com isso!
  Rodolfo tem um cunhado que adora sacaneá-lo, após beberem umas cervejas e todos já com os ânimos um pouco exaltados por conta da bebida e do calor do Rio de Janeiro, pergunta de supetão ao Rodolfo com a maior naturalidade do mundo:
 -E aí meu cunhado, já marcou seu exame de próstata?
A pergunta mais natural do mundo. A pergunta que Alberto (esse era o nome do cunhado) foi em tom de provocação pois sabia que esse papo ia dar "pano pra manga", mas ao mesmo tempo de preocupação, pois Rodolfo beirava os cinquenta anos e recusava-se terminante a ir ao consultório do urologista! Rodolfo tomou sua cerveja num só gole, e olhe que a caneca estava cheia, respirou, arrotou bem alto! Um arroto dirigido, endereçado ao Alberto! Deve ter pensado na sua cabeça de "macho", que esse arroto seria um símbolo de macheza, uma espécie de marcação de território, limpou a boca com as costas da mão, bem ao estilo troglodita e a enxugou na calça. Seu peito tremia, se pudesse matava o cunhado, com o cérebro cheio de álcool pensou em atravessar a mesa num só pulo e agarrar-se à sua garganta apertando-a até mata-lo, mas conteve-se, preferiu fingir não ter ouvido e imediadamente tentou começar outro assunto, no que foi interrompido por Alberto:
 -E aí Rodolfo, marcou o exame ou já o fez e não contou para ninguém?
   Antes de dar a sua resposta, falou alto todos os palavrões existentes e engasgou ao tentar inventar mais uns tamanha era a sua ira, sorveu mais uma caneca de cerveja e falou babando de tanto ódio, mas se contendo:
 -Você já fez o seu? Eu não consigo entender essa sua preocupação! Afinal a saúde é minha e o cu também. Cuide você do seu que eu cuido do meu! Aliás, diga-se de passagem, você é muito mais velho do que eu, já deve estar viciado em tomar "dedada" todo ano!
  Claro, respondeu Alberto, eu faço de três em três meses para não perder o contato com o médico e não enfraquecer a amizade! Ele agora vai lá em casa, toma cerveja comigo e me da uma "dedadinha de sobremesa", fica tão romântico! Falou Alberto as gargalhadas acompanhada por todos à mesa.
 O problema, é que na mesa, só tinha gozador, um pior do que o outro que já sabiam dessa digamos, ojeriza de Rodolfo contra os homossexuais e contra os urologistas, na cabeça dele, Rodolfo, tomar uma "dedada" por ano era sinal já adiantado de "viadagem". Onde já se viu dizia ele, baixar as calças para um homem meter o dedo nele e ainda "cavucar" para os lados para tentar achar uma doença, um câncer! Definitivamente não! preferia morrer do que ter digamos seu "terminal anal" invadido e estudado.
Um dos amigos na mais pura sacanagem comentou:
 -Rodolfo, você tá com medo de fazer o exame e gostar e querer ir toda semana ao médico para sentir a "pressão" do dedo dele! Olha depois de alguns exames destes você não vai nem sentir mais nada, só pede para o médico tirar o relógio, pois pode entrar a mão e você não vai nem sentir pois já vai está laceado.
O cunhado, diga-se de passagem um bom fdp, gozador ao extremo, mandou mais uma:
 -Rodolfo vai logo marcar essa porra desse exame! Mas não vai mandar flores para o médico no dia seguinte, contenha-se, seja homem!
  Rodolfo mentalmente contou até dez, mentalmente também mandou seu cunhado tomar no cu e preferiu não entrar mais ainda na provocação, deu um largo sorriso, tomou mais um gole de cerveja e foi ver a carne, pois estavam fazendo um churrasco e ia rolar um samba. Tudo transcorreu sem maiores incidentes ou contra tempo, rolou um belo de um churrasco com samba pois é assim que é o Rio de Janeiro, sacanagem muita cerveja e um bom samba, mas a conversa não saia da cabeça de Rodolfo. Já não era nenhum garoto, tinha na verdade cinquenta e um anos, "uma boa ideia". Era melhor fazer esse maldito exame de próstata, para pelo menos prevenir-se de um problema futuro que seria um câncer e o pior, o "Bilú" parar de funcionar devido a doença.
Marcou um urologista lá no Méier, bem longe de sua casa pois morava em Copacabana na Hilário de Gouveia, quase esquina com a Av: Atlântica. Pôs sua bermuda branca uma camiseta do seu time do coração e não colocou cueca, achou que seria menos invasivo, pensou que tirar a cueca e depois a bermuda para um cara, mesmo que fosse um médico, por o dedo no seu cu e cavucar seria demais, seria um estupro com consentimento e ele ainda teria que pagar por isso pois esse doutor não aceitava plano de saúde. Suava frio dentro do carro durante o percurso, nem o ar condicionado ligado no último o impedia de suar e sentir uma espécie de contração anal. No rádio do carro tocava "robocop gay" dos Mamonas Assassinas, teve vontade de dar meia volta e ir para casa, quase cagou-se todo ao imaginar a cena. Nunca, jamais contaria para ninguém sobre esse exame, nem a sua esposa e muito menos ao seu pai! Porra era homem! Repetia isso mentalmente dentro do carro, esmurrou o volante, parecia um possesso mas foi assim mesmo fazer o exame.
  Estava na sala de espera e existiam quatro consultórios, o nome do médico que ele havia marcado chamava-se Ayrton  Estava lendo uma revista em Inglês que ele não entendia patavina, mas era a única revista que havia sobrado então ele ficou "lendo as figuras", de repente uma voz aveludada da recepcionista chamou-o:
 -Senhor Rodolfo, consultório dois, doutor Ayrton.
  Rodolfo levantou-se cambaleante e dirigiu-se a sala, entrou cumprimentou o médico e tentou ver a grossura de seu dedo, conversou por breves instantes falou de sua idade, do seu vício em tabaco, pois fumava bastante e bebia mais ainda, era só chopp, mas bebia, já houvera casos de câncer em sua família e haviam sido fatais, por isso resolveu procurar um médico. Falou todo um blá-blá-blá como se estivesse se explicando por esse momento tão "hostil e devastador" na sua cabeça. Bem depois de todo esse papo foram para a sala do exame, o médico mandou ele tirar a bermuda e a cueca (Que ele não colocou, estava sem) e ficar de quatro. O suor escoria por seu rosto, o médico mandou-o relaxar, entupiu o dedo de vaselina e atochou, virou o dedo para um lado para outro, tirou o dedo besuntou com mais vaselina e atochou de novo, virou mais um pouquinho e por fim tirou, não demorou dois minutos mas para Rodolfo pareceram horas, o médico deu-lhe alguns papéis higiênicos e mandou ele entrar no banheiro para limpar-se. Ele queria sumir dali, se o consultório fosse no térreo teria saído pela janela do banheiro, mas era no sexto andar, limpou-se de qualquer jeito e foi para a sala conversar com o doutor mas doido para dar uma porrada nele, suava e tremia de ódio mas conteve-se.
 -Senhor Rodolfo, aqui estão alguns exames que vou lhe pedir para uma checagem mais a fundo, mas à priori está tudo certo com o senhor, faça os exames e depois marque uma nova consulta, boa tarde!
  Rodolfo saiu dali arrasado, parecia que o mundo havia acabado, pagou o estacionamento e foi pegar o carro, entrou no carro e nem ligou o rádio, dirigiu taciturno pela cidade até chegar ao seu destino, estava tão deprimido que resolveu tomar um chopp quando chegasse em Copacabana, sentia-se estuprado, invadido, exposto, na sua cabeça maluca, havia sido violado! Chegou em "Copa" e havia uma vaga na Hilário de Gouveia, bem em frente ao "Pavão Azul", estacionou o carro e estava tão "perdido" em seus pensamentos que nem viu seu cunhado sentado a sua frente tomando um chopp e olhando-o, quando virou-se para trancar o carro só escutou uma sonora gargalhada seguida por outra e mais outra!
 -Aí "cunhadão"! Foi fazer o exame né? E nem contou para ninguém!!
 -Que porra de exame e o caralho Alberto! Fui visitar um cliente. Para de encher o meu saco vai tomar no cu porra!
 -A é, e essa mancha redonda na tua bermuda? É mancha de vaselina, vazou pela bermuda trouxa. Ou você foi fazer o exame ou foi dar a bunda!
Não teve mais jeito, foram os dois para o hospital, a porrada comeu!