terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

GABRIEL, DO CORINTHIANS!!


Era um casal da família Santos, tradicionalíssima na zona norte de São Paulo. José herdou do pai dois postos de gasolina e um mercadinho e era sócio do Lions Clube. Ele e Berenice, sua esposa, viviam fazendo benesses aos moradores menos favorecidos de comunidades carentes. José era Português, ora pois, pois e corintiano roxo. Berenice também. Aliás, ele a conheceu num carnaval no Parque São Jorge onde Berenice havia sido rainha da torcida Fiel Corintiana. Ela uma mulata exuberante, José com seus olhos azuis e aparência atlética, conheceram-se e encantaram-se. Um ano depois estavam casados e desse casamento vieram três filhos, todos corintianos como os pais.
  A única coisa que os irritava profundamente era o sobrenome, Santos. Como eles, Corintianos, poderiam ter Santos no sobrenome? Justamente o nome do time que era o seu maior algoz? Pois o Santos na época do Pelé, obrigou o Corinthians a amargar vinte e três anos sem títulos! Berenice não tinha o mesmo sobrenome, mas ao casar-se teve que incorporar o nome do marido e isso deu uma baita confusão.
  Aos sábados a família ia à quadra da Gaviões da Fiel que ficava ali no bairro do Bom Retiro, próximo a marginal Tietê, com seus três filhos para curtir um sambinha e rever os amigos da época de torcida no Pacaembu. Berenice, após três cesáreas, teve várias complicações na última e, por recomendações médicas, abandonou os estádios. Como a esposa não podia ir aos jogos, José parou de ir também. Eles iam à quadra, tomavam uma cervejinha e embutiam o amor ao Corinthians nos filhos. Para as crianças não havia parquinho, shopping ou qualquer outro tipo de diversão. O passeio que elas conheciam era a quadra da Gaviões. Quando os jogadores entravam de férias no final do ano é que a família Santos entrava em férias também e se dispunha a fazer um passeio diferente. Mas as conversas eram sempre as mesmas, tudo girava em torno do futebol, mais precisamente do Corinthians.
 A idolatria ao "Timão" era tanta que os filhos tinham nomes de jogadores famosos que haviam defendido no passado as vitoriosas cores do Corinthians. O mais velho de dezessete anos chamava-se Rivelino, o do meio com doze anos era o Sócrates e o caçulinha temporão com apenas quatro anos era o único que não tinha nome de jogador. Berenice com muita malemolência  e "gingado", convenceu o marido e conseguiu homenagear seu falecido pai, dando o nome ao filho de Gabriel.
 As crianças adoravam e vibravam com o time, mas não tinham o menor cacoete com a bola, na verdade era melhor estudarem!
  O final do ano de 2012 foi fantástico em todos os sentidos. José comprou mais um posto de gasolina no bairro de Santana. Rivelino havia sido aprovado para a PUC no curso de medicina e o Corinthians foi campeão da taça Libertadores da América e Campeão do Mundo! Foi tão bom que toda a família resolveu tirar férias.
  Foram para Paraty, mais precisamente em Trindade, uma vila de pescadores no litoral do Rio de Janeiro e amaram o local! Muita praia e sossego durante o dia e agito e diversão à noite! Diz a lenda que em Trindade ninguém dorme.
 A família Santos estava com as baterias recarregadas para começar um novo ano e tinha novidade, Gabriel iria começar na escolinha.
 Voltando das férias, Berenice foi à reunião de pais e mestres para conhecer a professora de Gabriel, pegar a lista de material, que era pequena, papel sulfite, giz de cera, guache e etc. Foi recomendado a todas as mães que colocasse o crachá com o nome do filho que seria entregue, para que as professoras pudessem identificar as crianças, afinal, eram seis turmas com alunos entre quatro e cinco anos. Era um crachá simples, como o da foto, e o bendito crachá foi dado a cada mãe ao término da  reunião.

Era só colocar o nome do pequeno e mandá-lo para a escola. Berenice fez isso, colocou toda orgulhosa o nome do filho no crachá, mas o único problema é que neste dia, justamente neste dia, José é que foi deixar o pequeno Gabriel na escolinha e como todo homem que se preza, José esqueceu de pôr o crachá no menino e lá se foi Gabriel, chorando por se sentir abandonado no meio de tanta gente que não conhecia e tantas crianças que não eram seus amigos! Mas isso logo passou e o Gabriel se acalmou e se enturmou.
  As professoras começaram a dividir as turmas chamando o nome de cada criança que estava na lista de chamada e conferindo com os crachás. Aí é que começam os problemas. Havia várias crianças sem os seus respectivos crachás. A escola virou uma balbúrdia, um pandemônio para as pobres das professoras identificarem quem era quem e quem era aluno de quem. Crianças brincando e gritando excitadas com seu primeiro dia de aula. As professoras cheias de paciência, tentando identificar cada aluno que estava sem o seu crachá. Fechavam uma turma, pronto, punham na sala. E assim foi feito, até sobrarem somente duas turmas e oito crianças sem o crachá. Que coisa horrível não? com quatro anos nossas crianças já são identificadas por crachás! Daqui á alguns anos seremos identificados por um chip, como um código de barras estampado em nossa testa. Sinal dos tempos!
 -João de Deus? Gritou a professora!
Levantou-se uma mãozinha e quase balbuciando o pequerrucho respondeu:
 -Sou eu professora!
 -Vem para cá meu anjo.
A professora Ângela Maria estava torcendo fervorosamente para o anjinho João de Deus não ser da sua turma, pois nos poucos minutos que João estava na escola ele já tinha tocado literalmente o terror! Mas infelizmente o anjo ficou na turma dela.
 -Davi de Souza da Silva Agripino?
 -Sou eu professora!
E lá se foi o Davi para a turma da professora Marisa! Parecia ser um menino calmo, estava logo à frente de todos e não havia escutado ainda a voz dele.
E a chamada continuou e os alunos foram identificados até sobrar somente um nome. Gabriel dos Santos!
-Gabriel dos Santos? Gritava a professora Marisa, e nada!
-Gabriel dos Santosssssss berrava a Professora Ângela Maria, sem obter a resposta.
As duas turmas que estavam no pátio começaram a algazarra comandados por João de Deus. As professoras saíram a caça do aluninho com a ajuda da diretora. Foi então que a professora Ângela Maria reparou num aluno que passou desapercebido. Estava quietinho brincando com uma bola de meia que com certeza trouxe de casa. Jogava na parede e pegava. Estava no muro da escola bem embaixo de uma árvore frondosa e longe das vistas de seus coleguinhas para não correr o risco de ter de dividir a brincadeira com ninguém.
 -Gabriel dos Santos? Já berrava Marisa histérica! Os berros das professoras e diretora se ouviam à pelo menos quinhentos metros de distância.
Ângela Maria foi até o garoto que brincava com a bolinha de meia despreocupadamente. Abaixou-se e falou pausadamente e fazendo gestos, pois achou que a criança poderia ter algum tipo de deficiência auditiva:
 -Meu anjo! - Falou tocando em seu braço - Você é o Gabriel dos Santos?
O menino parou com a brincadeira e olhou para a professora com aquela cara bem maloqueira e respondeu:
 -Nãooooo professora! Eu sou Gabriel do Corinthians! E arrematou: -Vai timão!!
Suspiro de satisfação e alívio por parte dos professores, Gabriel dos Santos, não, "do Corinthians" foi achado.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

SEPARAÇÃO

  Acordou tarde para a vida. Desde que a esposa o havia deixado há mais ou menos onze meses só se afundava na bebida. Bebia até não aguentarem mais com ele, aí o levavam para a casa, até a portaria do prédio, seus amigos eram pessoas boas boêmios que como ele "varavam" a noite conversando tomando cerveja comendo bolinhos de bacalhau e divagando desde a situação atual do país até as bundas das mulheres que passavam à porta do bar, entremeando seus colóquios sobre seus clubes de coração, os porteiros de seus prédios ou as suas vizinhas gostosas e inacessíveis por serem ou gostosas de mais ou por serem muito aquém de suas idades, eles beiravam os cinquenta sessenta anos. Esses longos papos madrugada à dentro terminavam lá pelas cinco da manhã quando Zacarias (O dono do bar) pedir para os funcionários levantarem todas as cadeiras e as colocarem sobre as mesas e começarem a lavar o bar; aí a conversa ia terminando, não sem antes algum deles pedirem a "saideira", depois de anos Zacarias sabia que essa saideira ia longe, por isso pedia ao garçom de nome José, mas apelidado por eles de "amigo da onça"
a já começar a oferecer a "saideira" lá pelas quatro horas da manhã para às cinco conseguir fechar o bar, por isso seu "Zé" foi apelidado de "amigo da onça", por que por mais que eles pedissem quase implorarem, seu "Zé" após às cinco não liberava e nem serviam mais nenhuma cerveja, era "bico seco" a partir desse horário.
Esse quase ritual, repetia-se todas as quartas e sextas feiras da semana, e aos domingos era após a praia, ás dezesseis horas essa turma começava a chegar. Tinham uma mesa cativa no bar nestes dias e horários mencionados e aí se algum incauto desavisado sentasse nela pouco antes desses incorrigíveis boêmios chegarem, era discussão na certa com o Zacarias.Esse ritual repetia-se há mais de vinte anos, eram amigos inseparáveis, estudaram juntos no colégio Notre Dame em Ipanema, frequentavam a praia do Arpoador por morarem perto, compraram as suas "lambretas" juntos, todas brancas e até hoje se tratam como "bicho" e se vêem alguma mulher bonita à chamam de "broto".
  Coitada da esposa, bem que tentou aguentar o casamento, e aquentou. É espiritualista dá aula de Yoga é toda zen, mas após vinte e seis anos de casado e Francisco todo final de ano, após pular sete ondas, jogar flores para Iemanjá prometer renunciar seu lado boêmios sem conseguir, Raquel não aguentou mais, havia conhecido um aluno seu também de meia idade também há um ano se encantou com ele mas conteve-se, afinal não tinha mais idade para esses arroubos de paixões juvenis, já tinha cinquenta e seis anos mas sabia que era bela ainda, pois despertava olhares quando corria no calçadão de Copacabana, pernas bem torneadas, zero de barriga, sua barriga é um "tanquinho", bumbum todo definido, uns "peitinhos" de dar inveja a muita menininha de dezesseis anos e os olhos verdes, ah os olhos verdes!  Lindos, olhar de "tentação". Após tantas promessas sem sucesso de Francisco de um pouco mais de atenção à ela, encheu-se de coragem e "deu" para o aluno, deu mais por vingança, mas acabou gostando dele e após dois meses foram morar juntos, num apartamento na Prado Júnior, todo zen, cheio de imagem de Buda, incenso do jeito que Raquel e o namorado gostam. Raquel começou a arrumar suas coisinhas e foi levando de pouco em pouco para a casa do namorado, até que numa quarta feira reuniu o que sobrara, deixou um bilhete, na verdade uma carta com um coração desenhado, explicando a situação e sem esconder absolutamente nada e foi embora.
  Francisco à princípio culpou o livro que a esposa leu, a trilogia de "Cinquenta tons de cinza" que segundo ele mexeram com a cabeça dela deixando-a muito assanhada e achando que tinha quinze anos, mas por fim compreendeu que a culpa fora dele mesmo e até chegou a admitir que a mulher o esperou tempo demais se fosse ao contrário ele não esperaria tanto tempo, não arranjaria uma amante pois não era o seu feitio, mas com certeza também iria embora de casa só que mais cedo. Raquel é linda apesar da idade e só depois que ela foi embora é que ele começou a prestar atenção nisto, começou a lembrar de seus olhos que foi o que fizeram ele ficar perdidamente louco de amores, aqueles olhos verdes da cor do mar de Angra. Na juventude chegou a esboçar uma música enaltecendo a beleza de seus olhos. Perdido em seus pensamentos lembrou de que a esposa era "boa de cama" e como era linda nua, com seus peitos apontando para o céu e aquela bunda durinha, não aguentou, masturbou-se pensando nisto e se sentiu vingado, havia "comido" a mulher, mesmo que em pensamento, o namorado dela era corno!
  Começou a beber também em outro bar às segundas, terças e sábados e acabou virando um trôpego nas madrugadas bebendo todos os dias e fazendo novos amigos bêbados como ele. Que triste, deixou de ser boêmio para virar um bêbado, daqueles tantos que se debruçam a mesa de um bar e choram as mágoas e riem sem motivo algum!
  Um belo dia quando o sol despontava no horizonte e o céu num misto de amarelo com laranja dando um verdadeiro espetáculo de cores sobre o Rio de Janeiro, viu a ex-esposa correndo em Copacabana, cabelo presos num "rabo de cavalo", um jogging branco contrastando com a sua tez bronzeada e viu de relance uns peitos maiores, achou que era efeito da bebida pois não havia ainda ido para a casa, resolveu tomar uma água de coco no quiosque da rua Francisco Sá na esperança que Raquel voltasse por esse caminho em sua corrida matinal, afinal procurava evitar passar na avenida Prado Júnior dês da separação, na segunda água de coco viu Raquel voltando correndo pelo calçadão, o efeito da bebida cessou de imediato, os seios de Raquel realmente estavam maiores, ela havia colocado silicone! Já eram belos mas estavam mais belos ainda e os bicos pareciam querem suplantar a blusa de tão "tenros" e ao mesmo tempo duros! Com certeza ela estava feliz com  seu novo affair. Ficou sentado estático e virou o corpo para o outro lado para a mulher não vê-lo, principalmente no estado em que se encontrava, semi bêbado! Ela passou correndo, linda com seus fones de ouvido um óculos escuros que havia sido presente seu num aniversário de casamento qualquer. Ela não o viu ou fingiu que não viu afinal tiveram algumas rusgas após a separação repentina.
 Por que não deu a devida atenção a mulher quando ela pedia? Raquel por todos os anos só queria um pouco de carinho, afeto e um marido em casa! Para passearem juntos, ver o pôr do sol nas pedras do Arpoador como eles faziam quando eram mais moços,

 mas Francisco à negligenciava em prol dos "amigos" e agora tinha a mais absoluta certeza que a perdera para sempre, ela estava diferente, muito mais bonita e sensual, não era mais nem de longe aquela Raquel! Era um "brotinho" de cinquenta e seis anos!
O que adianta ter mesa cativa em um bar, um bando de amigos bêbados que se intitulam "boêmios", "varar" as noites como se fossem garotos achando que podem tudo, tamanha é a sede de viver apegando-se à longínqua e distante juventude que já se foi enquanto a mulher amada vai-se embora escorrendo pelos dedos em que por incrível que pareça ela, sequiosa tentou segurar-se e apegar-se desesperadamente para não deixar escapar esse amor da juventude e de tantos anos, como ela queria que tivesse sido diferente, mas a sua vontade sucumbiu diante do aparente desprezo de Francisco e a descoberta de um novo amor dando uma "sacudida" na vida!
  Francisco ao vê-la passar faltou-lhe o ar, só quando ela estava uns duzentos metros adiantes atreveu-se a virar o corpo na direção dela e a viu afastar-se! Largou a água de coco, pediu uma cerveja e pós-se a divagar sobre a vida, para ser mais exato sobre a sua vida, não se sabe ao certo quanto tempo demorou esse devaneio, mas sentiu um cutucão no ombro esquerdo, alguém o tocava e era com força! Irritado virou-se para o lado meio cambaleante pois a bebida já começara a fazer efeito novamente, e viu um dos amigos assustadíssimo com os olhos arregalados:
 -Francisco, o que houve "bicho"?
 -Nada. Por que?
Respondeu sem conseguir identificar quem era, tamanho era seu estado de embriagues, pois parara de beber quando viu Raquel passar, mas ao vê-la retornar começou a beber de novo, mas sabia pela voz que era um amigo.
 -Você tá maluco ou tá bêbado ainda "bicho"?
 -Por que?
 -Eu estava passando e resolvi parar, tem pelo menos dez minutos que você está conversando com a estátua do Drummond de Andrade e parece contar um segredo a ele, pois a palavra que eu consigo ouvir é o nome da Raquel, e você tá em altos papos, parecem que são amigos pois estão abraçados!
  Francisco nem deu atenção para o amigo, levantou-se pagou a conta, atravessou a avenida Atlântica num paço bêbado e foi para a casa. Talvez com um pouco de sorte sonharia com Raquel.