Era um casal da família Santos, tradicionalíssima na zona norte de São Paulo. José herdou do pai dois postos de gasolina e um mercadinho e era sócio do Lions Clube. Ele e Berenice, sua esposa, viviam fazendo benesses aos moradores menos favorecidos de comunidades carentes. José era Português, ora pois, pois e corintiano roxo. Berenice também. Aliás, ele a conheceu num carnaval no Parque São Jorge onde Berenice havia sido rainha da torcida Fiel Corintiana. Ela uma mulata exuberante, José com seus olhos azuis e aparência atlética, conheceram-se e encantaram-se. Um ano depois estavam casados e desse casamento vieram três filhos, todos corintianos como os pais.
A única coisa que os irritava profundamente era o sobrenome, Santos. Como eles, Corintianos, poderiam ter Santos no sobrenome? Justamente o nome do time que era o seu maior algoz? Pois o Santos na época do Pelé, obrigou o Corinthians a amargar vinte e três anos sem títulos! Berenice não tinha o mesmo sobrenome, mas ao casar-se teve que incorporar o nome do marido e isso deu uma baita confusão.
Aos sábados a família ia à quadra da Gaviões da Fiel que ficava ali no bairro do Bom Retiro, próximo a marginal Tietê, com seus três filhos para curtir um sambinha e rever os amigos da época de torcida no Pacaembu. Berenice, após três cesáreas, teve várias complicações na última e, por recomendações médicas, abandonou os estádios. Como a esposa não podia ir aos jogos, José parou de ir também. Eles iam à quadra, tomavam uma cervejinha e embutiam o amor ao Corinthians nos filhos. Para as crianças não havia parquinho, shopping ou qualquer outro tipo de diversão. O passeio que elas conheciam era a quadra da Gaviões. Quando os jogadores entravam de férias no final do ano é que a família Santos entrava em férias também e se dispunha a fazer um passeio diferente. Mas as conversas eram sempre as mesmas, tudo girava em torno do futebol, mais precisamente do Corinthians.
A idolatria ao "Timão" era tanta que os filhos tinham nomes de jogadores famosos que haviam defendido no passado as vitoriosas cores do Corinthians. O mais velho de dezessete anos chamava-se Rivelino, o do meio com doze anos era o Sócrates e o caçulinha temporão com apenas quatro anos era o único que não tinha nome de jogador. Berenice com muita malemolência e "gingado", convenceu o marido e conseguiu homenagear seu falecido pai, dando o nome ao filho de Gabriel.
As crianças adoravam e vibravam com o time, mas não tinham o menor cacoete com a bola, na verdade era melhor estudarem!
O final do ano de 2012 foi fantástico em todos os sentidos. José comprou mais um posto de gasolina no bairro de Santana. Rivelino havia sido aprovado para a PUC no curso de medicina e o Corinthians foi campeão da taça Libertadores da América e Campeão do Mundo! Foi tão bom que toda a família resolveu tirar férias.
Foram para Paraty, mais precisamente em Trindade, uma vila de pescadores no litoral do Rio de Janeiro e amaram o local! Muita praia e sossego durante o dia e agito e diversão à noite! Diz a lenda que em Trindade ninguém dorme.
A família Santos estava com as baterias recarregadas para começar um novo ano e tinha novidade, Gabriel iria começar na escolinha.
Voltando das férias, Berenice foi à reunião de pais e mestres para conhecer a professora de Gabriel, pegar a lista de material, que era pequena, papel sulfite, giz de cera, guache e etc. Foi recomendado a todas as mães que colocasse o crachá com o nome do filho que seria entregue, para que as professoras pudessem identificar as crianças, afinal, eram seis turmas com alunos entre quatro e cinco anos. Era um crachá simples, como o da foto, e o bendito crachá foi dado a cada mãe ao término da reunião.
A única coisa que os irritava profundamente era o sobrenome, Santos. Como eles, Corintianos, poderiam ter Santos no sobrenome? Justamente o nome do time que era o seu maior algoz? Pois o Santos na época do Pelé, obrigou o Corinthians a amargar vinte e três anos sem títulos! Berenice não tinha o mesmo sobrenome, mas ao casar-se teve que incorporar o nome do marido e isso deu uma baita confusão.
Aos sábados a família ia à quadra da Gaviões da Fiel que ficava ali no bairro do Bom Retiro, próximo a marginal Tietê, com seus três filhos para curtir um sambinha e rever os amigos da época de torcida no Pacaembu. Berenice, após três cesáreas, teve várias complicações na última e, por recomendações médicas, abandonou os estádios. Como a esposa não podia ir aos jogos, José parou de ir também. Eles iam à quadra, tomavam uma cervejinha e embutiam o amor ao Corinthians nos filhos. Para as crianças não havia parquinho, shopping ou qualquer outro tipo de diversão. O passeio que elas conheciam era a quadra da Gaviões. Quando os jogadores entravam de férias no final do ano é que a família Santos entrava em férias também e se dispunha a fazer um passeio diferente. Mas as conversas eram sempre as mesmas, tudo girava em torno do futebol, mais precisamente do Corinthians.
A idolatria ao "Timão" era tanta que os filhos tinham nomes de jogadores famosos que haviam defendido no passado as vitoriosas cores do Corinthians. O mais velho de dezessete anos chamava-se Rivelino, o do meio com doze anos era o Sócrates e o caçulinha temporão com apenas quatro anos era o único que não tinha nome de jogador. Berenice com muita malemolência e "gingado", convenceu o marido e conseguiu homenagear seu falecido pai, dando o nome ao filho de Gabriel.
As crianças adoravam e vibravam com o time, mas não tinham o menor cacoete com a bola, na verdade era melhor estudarem!
O final do ano de 2012 foi fantástico em todos os sentidos. José comprou mais um posto de gasolina no bairro de Santana. Rivelino havia sido aprovado para a PUC no curso de medicina e o Corinthians foi campeão da taça Libertadores da América e Campeão do Mundo! Foi tão bom que toda a família resolveu tirar férias.
Foram para Paraty, mais precisamente em Trindade, uma vila de pescadores no litoral do Rio de Janeiro e amaram o local! Muita praia e sossego durante o dia e agito e diversão à noite! Diz a lenda que em Trindade ninguém dorme.
A família Santos estava com as baterias recarregadas para começar um novo ano e tinha novidade, Gabriel iria começar na escolinha.
Voltando das férias, Berenice foi à reunião de pais e mestres para conhecer a professora de Gabriel, pegar a lista de material, que era pequena, papel sulfite, giz de cera, guache e etc. Foi recomendado a todas as mães que colocasse o crachá com o nome do filho que seria entregue, para que as professoras pudessem identificar as crianças, afinal, eram seis turmas com alunos entre quatro e cinco anos. Era um crachá simples, como o da foto, e o bendito crachá foi dado a cada mãe ao término da reunião.
Era só colocar o nome do pequeno e mandá-lo para a escola. Berenice fez isso, colocou toda orgulhosa o nome do filho no crachá, mas o único problema é que neste dia, justamente neste dia, José é que foi deixar o pequeno Gabriel na escolinha e como todo homem que se preza, José esqueceu de pôr o crachá no menino e lá se foi Gabriel, chorando por se sentir abandonado no meio de tanta gente que não conhecia e tantas crianças que não eram seus amigos! Mas isso logo passou e o Gabriel se acalmou e se enturmou.
As professoras começaram a dividir as turmas chamando o nome de cada criança que estava na lista de chamada e conferindo com os crachás. Aí é que começam os problemas. Havia várias crianças sem os seus respectivos crachás. A escola virou uma balbúrdia, um pandemônio para as pobres das professoras identificarem quem era quem e quem era aluno de quem. Crianças brincando e gritando excitadas com seu primeiro dia de aula. As professoras cheias de paciência, tentando identificar cada aluno que estava sem o seu crachá. Fechavam uma turma, pronto, punham na sala. E assim foi feito, até sobrarem somente duas turmas e oito crianças sem o crachá. Que coisa horrível não? com quatro anos nossas crianças já são identificadas por crachás! Daqui á alguns anos seremos identificados por um chip, como um código de barras estampado em nossa testa. Sinal dos tempos!
-João de Deus? Gritou a professora!
Levantou-se uma mãozinha e quase balbuciando o pequerrucho respondeu:
-Sou eu professora!
-Vem para cá meu anjo.
A professora Ângela Maria estava torcendo fervorosamente para o anjinho João de Deus não ser da sua turma, pois nos poucos minutos que João estava na escola ele já tinha tocado literalmente o terror! Mas infelizmente o anjo ficou na turma dela.
-Davi de Souza da Silva Agripino?
-Sou eu professora!
E lá se foi o Davi para a turma da professora Marisa! Parecia ser um menino calmo, estava logo à frente de todos e não havia escutado ainda a voz dele.
E a chamada continuou e os alunos foram identificados até sobrar somente um nome. Gabriel dos Santos!
-Gabriel dos Santos? Gritava a professora Marisa, e nada!
-Gabriel dos Santosssssss berrava a Professora Ângela Maria, sem obter a resposta.
As duas turmas que estavam no pátio começaram a algazarra comandados por João de Deus. As professoras saíram a caça do aluninho com a ajuda da diretora. Foi então que a professora Ângela Maria reparou num aluno que passou desapercebido. Estava quietinho brincando com uma bola de meia que com certeza trouxe de casa. Jogava na parede e pegava. Estava no muro da escola bem embaixo de uma árvore frondosa e longe das vistas de seus coleguinhas para não correr o risco de ter de dividir a brincadeira com ninguém.
-Gabriel dos Santos? Já berrava Marisa histérica! Os berros das professoras e diretora se ouviam à pelo menos quinhentos metros de distância.
Ângela Maria foi até o garoto que brincava com a bolinha de meia despreocupadamente. Abaixou-se e falou pausadamente e fazendo gestos, pois achou que a criança poderia ter algum tipo de deficiência auditiva:
-Meu anjo! - Falou tocando em seu braço - Você é o Gabriel dos Santos?
O menino parou com a brincadeira e olhou para a professora com aquela cara bem maloqueira e respondeu:
-Nãooooo professora! Eu sou Gabriel do Corinthians! E arrematou: -Vai timão!!
Suspiro de satisfação e alívio por parte dos professores, Gabriel dos Santos, não, "do Corinthians" foi achado.
As professoras começaram a dividir as turmas chamando o nome de cada criança que estava na lista de chamada e conferindo com os crachás. Aí é que começam os problemas. Havia várias crianças sem os seus respectivos crachás. A escola virou uma balbúrdia, um pandemônio para as pobres das professoras identificarem quem era quem e quem era aluno de quem. Crianças brincando e gritando excitadas com seu primeiro dia de aula. As professoras cheias de paciência, tentando identificar cada aluno que estava sem o seu crachá. Fechavam uma turma, pronto, punham na sala. E assim foi feito, até sobrarem somente duas turmas e oito crianças sem o crachá. Que coisa horrível não? com quatro anos nossas crianças já são identificadas por crachás! Daqui á alguns anos seremos identificados por um chip, como um código de barras estampado em nossa testa. Sinal dos tempos!
-João de Deus? Gritou a professora!
Levantou-se uma mãozinha e quase balbuciando o pequerrucho respondeu:
-Sou eu professora!
-Vem para cá meu anjo.
A professora Ângela Maria estava torcendo fervorosamente para o anjinho João de Deus não ser da sua turma, pois nos poucos minutos que João estava na escola ele já tinha tocado literalmente o terror! Mas infelizmente o anjo ficou na turma dela.
-Davi de Souza da Silva Agripino?
-Sou eu professora!
E lá se foi o Davi para a turma da professora Marisa! Parecia ser um menino calmo, estava logo à frente de todos e não havia escutado ainda a voz dele.
E a chamada continuou e os alunos foram identificados até sobrar somente um nome. Gabriel dos Santos!
-Gabriel dos Santos? Gritava a professora Marisa, e nada!
-Gabriel dos Santosssssss berrava a Professora Ângela Maria, sem obter a resposta.
As duas turmas que estavam no pátio começaram a algazarra comandados por João de Deus. As professoras saíram a caça do aluninho com a ajuda da diretora. Foi então que a professora Ângela Maria reparou num aluno que passou desapercebido. Estava quietinho brincando com uma bola de meia que com certeza trouxe de casa. Jogava na parede e pegava. Estava no muro da escola bem embaixo de uma árvore frondosa e longe das vistas de seus coleguinhas para não correr o risco de ter de dividir a brincadeira com ninguém.
-Gabriel dos Santos? Já berrava Marisa histérica! Os berros das professoras e diretora se ouviam à pelo menos quinhentos metros de distância.
Ângela Maria foi até o garoto que brincava com a bolinha de meia despreocupadamente. Abaixou-se e falou pausadamente e fazendo gestos, pois achou que a criança poderia ter algum tipo de deficiência auditiva:
-Meu anjo! - Falou tocando em seu braço - Você é o Gabriel dos Santos?
O menino parou com a brincadeira e olhou para a professora com aquela cara bem maloqueira e respondeu:
-Nãooooo professora! Eu sou Gabriel do Corinthians! E arrematou: -Vai timão!!
Suspiro de satisfação e alívio por parte dos professores, Gabriel dos Santos, não, "do Corinthians" foi achado.

