...Estavam todos no hospital, pra velar um defunto vivo!! O defunto era eu, só não haviam me contado!!
Minhas irmãs dormiram no hospital para a "viúva" Mariângela descansar um pouco em casa e numa cama decente, não que minha cama seja indecente, as vezes até é, mas é que no hospital ela dormia num sofá totalmente desconfortável.
Quando ela foi para casa, ficamos nós três conversando e fazendo fofoca e falando da vida, eu e minhas irmãs temos uma sintonia muito boa! Ruim era quando eu queria ir ao banheiro e ficava uma das duas na porta, isso depois de muita discussão, pois elas queriam entrar. O médico havia proibido de me deixar sozinho, eu só não fui novamente para a UTI, por que eram as minhas últimas horas de lucides e minhas irmãs vieram de longe, aí me deram um refresco. a Claudia queria me acompanhar no banheiro de qualquer jeito, queria que deixasse a porta aberta e eu puto da minha vida, sem querer deixar, e não deixei!! É que eu não sabia que eu poderia desmaiar, entrar em coma, sei lá, as perspectivas eram as piores e elas sabiam disto, só eu é que não.
Lá para umas 3:00 da manhã não aquentei mais e dormi, depois eu vim a saber que a Claudia e Teresa (Minhas irmãs) ficaram revezando para velar o meu sono e atentas a qualquer detalhe. Não são somente irmãs, são anjos!
Acordei mais ou menos umas 10:00 da manhã, tomei meu café e começou a chegar gente no hospital, amigos, patrões, telefone não parava de tocar, eu pensei: Tô importante pra burro!! Porra nenhuma, eu tava era morrendo e as pessoas vieram para homenagens póstumas rsrsrsrsrsrs!!!!!
Em um determinado momento, chegou o médico que me atendia acompanhado do neurocirurgião Doutor Antônio- O Cara!! Viu meu exame, conversou com minha família e entrou no quarto vindo direto a mim e disse exatamente assim: Bom dia, sou o Doutor Antonio e vou lhe operar amanhã as 7:00 da manhã, bem para o senhor ficar ciente dos riscos, eu tenho 90% de chances de lhe perder na mesa de operação, 5% da operação ser parcialmente bem sucedida e o senhor ficar tetraplégico e temos 5% de chances do senhor voltar a ser o que era, perfeito!
Como eu não estava entendendo nada, depois de ouvir tudo isso, eu perguntei ao médico se tinha algum risco, tava parecendo piada de loura né?
Fico agora imaginando, minha esposa sozinha no hospital recebendo a notícia do primeiro médico, que eu teria só algumas horas ou dias de lucidez e depois viria a morte... Deve ter sido foda pra ela, imagino minhas irmãs recebendo essa mesma notícia e tendo que passar a noite comigo no hospital conversando, brincando como se nada estivesse acontecendo, deve ter sido foda pra elas também. Os garotos, meus enteados, que eu considero como filhos e os amo, o Mário estava viajando, estava em Cabo Frio, nós esperando para passarmos as férias, foi foda para eles também!!
Marcelo, um de meus cunhados, mandou uma medalhinha benzida pelo padre Marcelo, Teresa me deu uma medalha com a imagem de São Francisco de Assis que nossa mãe mandou fazer ao meu nascimento que eu nem sabia que existia, meu filho Arthur me deu um arco de Apolo dourado para me proteger, nossa ganhei presente pra caramba.
Lembro que assim que soube que iria ser operado, pedi a Mariângela para procurar a Lygia minha filha, com quem eu não falava a dezoito anos, queria pedir desculpa, perdão, queria vê-la, sei lá, tanta coisa passou pela minha cabeça, eu vi um filme se desenrolar.
Combinei com a Mariângela, que se eu ficasse tetraplégico, um aperto de mão era que eu havia entendido, e dois apertos de mão era não entendi, fora outras coisas que combinamos que eu sinceramente não lembro de nada.
Ás 7:00 da manhã do dia seguinte, entraram no quarto do hospital o Doutor Antônio e uma equipe de enfermeiros com uma maca para me levar para a mesa cirúrgica em outro andar do hospital, fixei meu olhar na Teresa, na Claudia e na Mariângela e pra mim era quase uma despedida, lembro que peguei na mão das três e elas estavam geladas, não sei se pelo ar condicionado do quarto ou se por medo! Estava quase me despedindo das três mulheres mais caras e mais raras de minha vida, vi o Neto e a Sônia, meus cunhados, Seu Floriano, meu sogro e o Bruno e o Betinho meus enteados, todos se despedindo! Que coisa engraçada, a única certeza que se tem na vida, é que quando nascemos já estamos morrendo aos poucos, é inevitável.
Não tive medo de morrer, pois sei que o outro lado é bem melhor do que esse, tive medo do umbral, e esse eu sei que teria que cumprir uma temporada lá. Sabia que eu não era um primor de criatura aqui na crosta terrestre e eu tinha que reparar os meus erros cometidos, e eram bastante rsrsrsrs!!
Entramos no elevador do hospital descemos e fomos para a ante sala cirúrgica, tinham mais três pessoas que também iriam ser operadas, estavam na mesma sala comigo. Uma das enfermeiras me perguntou se eu tinha algum recado para dar á família, eu queria falar com a Mariângela, perguntar se ela havia achado a Lygia, minha filha, mas a enfermeira voltou e falou que não havia parente nenhum meu na sala de espera, pensei comigo; FODEU!!!! Foram comprar a porra do caixão, preparar o velório que eu acho uma palhaçada. Sou a favor da cremação, não prejudica o meio ambiente e é bem mais simples, sei lá, pensei num monte de coisas.
Depois disso, não lembro de mais nada... Amanhã eu continuo!
Estou tendo a honra de fazer o primeiro comentário!? Orgulho puro! E depois a gente conversa por email sobre os textos!!
ResponderExcluirCara estranho, você é meu irmão? Se for tenho uma porrada de coisas para te perguntar, se não for eu te agradeço o comentário, afinal você é o único que lê!! Valeu, obrigado!
Excluireu leio também seu reclamão!!!!!!!!!!!!!!!!!
ResponderExcluirOi Mozart estou procurando a Maria Teresa. Fui paciente dela ha 20 anos no Rio de Janeiro, e queria muito saber dela. meu email eh Ana.kieckbusch@gmail.com e ela me conhecia como Ana Paula Sampaio Soledade Santos... Obrigada. Espero que voce e sua familia estejam bem!
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