Vim para São Paulo com quinze anos junto com meus pais e uma renca de irmãos, cinco contando comigo, fugindo da seca e fome na Bahia. Somos de
Riachão do Jacuípe, uma cidade banhada pelo rio Jacuípe, quando ele existe, quando a seca não vem torrando tudo pela frente, destruindo plantações e matando o gado. A população de minha cidade é quase todas de "branquinhos" pois temos influência principalmente do povo Holândes, de índios ,Português e logicamente uma mistura que não poderia faltar para dar o tempero final, Negros; que é para ajudar a dar força ao povo nordestino. Sempre digo que somos "negros brancos", pois temos a "raça" e a estirpe do negro, com os cabelos quase palha e olhos claros, por vezes verdes ou azul, dependendo do sol.
O ponto vermelho é minha cidade
Rio secando.
Papai vendeu as terras, o gado e rumou com todos para o interior de São Paulo para trabalhar como "boia fria" nas plantações de cana de açúcar em mil novecentos e oitenta, na cidade de Palmares Paulista. Percorremos cerca de mil e novecentos quilômetros! Era o boom da cana de açúcar ou se preferirem do Etanol. Carros movidos a gasolina, impulsionando o progresso no país.
Nós não víamos pai e mãe sair para a labuta pois era muito cedo, só escutávamos as vezes o barulho do caminhão vindo busca-los para mais um dia de "luta" cortando cana.
Sempre deixavam a mesa posta para nós tomarmos o desjejum antes da escola, ás vezes era inhame que dava no quintal e em outras também, outras vezes era mugunzá, e em outas também pois tinha uma rocinha de milho que mamãe plantou do lado direito da casa, acompanhado com leite da vaca que papai adquiriu junto com o bezerro na trocando de seu relógio e na espingarda de dois canos.
Pai e mãe chegavam em casa à noite, não posso precisar a hora pois a vaca ficou no lugar do relógio, mas pela televisão do vizinho que ficávamos olhando de quina da janela da sala,era na hora da novela.
Nossa casa era uma casa simples com dois cômodos e era de taipa, a "casinha" ficava do lado de fora afastada uns cinco metros da casa por causa do cheiro forte, tinha um forno a lenha quase que contíguo a casa. Os cômodos eram distribuídos da seguinte forma. Quarto de todos, pai, mão e nós os cinco irmãos cada qual com sua rede, e pai com um lençol dividiu a parte dele com a mãe e colocou as redes separadas. O outro cômodo era a cozinha, com fogão a lenha, uma mesa para nós gigante e diversos bancos toscos de madeira ao redor dela. A água papai puxou de um riacho que corria a mais ou menos trinta metros dali e passava do lado direito da casa mas fora de nossa propriedade.

Construção da casa
Ao sair da escola, parava para jogar uma bola ou tomar banho no riacho com os colegas da classe. Como era o mais velho, tinha a incumbência de dar de comer aos meus irmãos menores e a mim também. Era simples a comida, era só fazer um feijão e depois de pronto colocar uma farinha e essa era quase sempre a nossa comida, feijão com farinha acompanhado de... Farinha, essa era a nossa "mistura". Quase sempre eu atrasava a hora do almoço, por causa dos banhos no riacho ou por causa da bola mas ninguém nunca reclamou ou morreu de fome, pai nunca ficou sabendo desta minha estrepolia, eramos muito unidos, um por todos todos por um.
Tudo corria bem, pai e mãe trabalhando, quase todos os filhos na escola, só dois que não iam, pois eram quase bebes e iam com o pai e a mãe para o corte da cana. Não choravam e mãe parava de quando em vez para dar o peito.
Nas festas de final de ano, papai quando conseguia economizar algum dinheiro o que era raríssimo, comprava um bode ou um leitão para nós comermos, e era uma festança, dava comida "pra mais de mês", pois mãe punha o que sobrava imerso na banha para conservar ou salgava, pois em nossa casa não tinha geladeira! Geladeira, televisão, rádio, eram artigos de luxo que nem sonhavam em existir em nosso orçamento.
Deram-se as primeiras baixas na família. Meus dois irmãos menores que iam com nossos pais para o corte da cana, tiveram febres altíssimas ficaram com o corpo cheio de manchas vermelhas e coçando, pois eles se esfregavam bastante e saía uma espécie de água da parte coçada! Mãe e pai levaram a benzedeira que tinha próximo a nossa casa mas não teve jeito, morreram! Ouvi meus pais dizerem que foi de catapora ou sarampo.

Meu irmão Sebastião que era um ano mais novo que eu, insistia com pai para deixa-lo ajudar a cortar cana após o colégio, insistiu tanto que era melhor pois seria mais um a ajudar, que mãe estava triste com a perda dos filhos, dois de uma só vez, quase não produzia direito, o patrão estava reclamando, "aperreou" tanto o pai, que ele com muito custo comprou uma bicicleta de "terceira" mão! O freio eram os pés o selim estava todo gasto faltando espuma em algumas partes e com um dos pedais faltando. E lá ia ele após a escola para colheita da cana, pois pai obrigava a todos estudarem! Pai e mãe não sabiam escrever o nome, mas nós não! Nós sabíamos até fazer conta de mais de menos, multiplicar e dividir! Papai queria os filhos letrados, não queria que tivéssemos no futuro o seu fim.
Num dia de colheita, num município um pouco distante de casa pois a colheita de cana é feita em diversos pontos, quando se corta tudo em um ponto vai-se para outro lugar. Sebastião foi junto com eles pois era mês de férias. Pai não queria que ele fosse, pois tinha passado de ano na escola com notas boas, inclusive com dez em matemática em todos os bi-mestres, já era considerado um "gênio" entre nós! Mas com Sebastião não tinha jeito, quando ele colocava uma coisa na cabeça, ele fazia, e pai considerava-o um "gênio" e pra não contrariar o quem sabe, futuro "doutor", pai fazia as suas vontades dentro da medida do possível, mas sabe como é, papai simplório, um verdadeiro "matuto" sem saber o significado de nada das coisas escritas com um filho que já sabia ler e fazer "contas"! Na cabeça dele era um prodígio e Sebastião sabendo disto, fazia valer as suas vontades.
Foram então fazer a colheita da cana em um município distante, foram pras bandas de Araraquara. Vou contar o que ouvi dizer.
Pai, mãe e Sebastião desembarcaram da boleia do caminhão, com o sol dando os primeiros esboços que seria um dia quentíssimo, não havia uma leve brisa! Era um dia seco e "pesado". O caminhão deixou metade dessa leva de gente, e a outra metade seguiu para se juntar a turma que já estava em São José do Rio Preto. Fazia uns quarenta minutos que o caminhão havia saído e meu irmão ao pegar um feixe da cana para ser cortado com a foice, sentiu uma dor alucinante nas mãos como se tivessem furado seu ante braço com duas agulhas de croche! Tirou rapidamente a mão do feixe de cana mas com a foice firmemente segura na outra mão e ao ver algo se movimentando desceu a foice com vontade e dor, era uma Cascavel! Eles estavam no meio do "nada", o caminhão havia partido para levar outros trabalhadores,e a cidade ficava à trinta minutos de carro dali.

Hoje, eu sei que não houve tempo hábil para salvar meu irmão, até chegar a pé na estrada, arranjar uma bendita alma que parasse o carro para dar uma carona até o hospital e Sebastião tomar o soro antiofídico que por sinal não tinha e tiveram que pedir no outro hospital mais próximo, foi muito tempo! Ele se foi.
Pai e mãe não conseguiam mais se compor, foi um baque extremo para eles e para nós também! Sebastião era o filho que eles depositaram todas as "fichas" que seria alguém muito importante nessa "vida de meus Deus", e para nós, era o nosso companheiro de folguedos, de banhos em rio e de conversas.
Pai e mãe começaram a beber após a lida, e olha que eu nunca os vi beber até essa desgraça entrar em nossa casa sem pedir licença! Eles nem notaram quando Aparecida, minha outra irmã mais nova, arrumou suas trouxas pegou uma carona e partiu para São Paulo, capital, na companhia de um caminhoneiro que ás vezes atravessava por essas bandas. Disse para mim que estava cansada desta vida de miséria e de ver os irmãos morrendo como fruta que despenca de uma árvore ao ficar madura! Falou que ia ser alguém na vida e que voltava para buscar painho e mainhã e eu. Tive vontade de acompanha-la, de ir embora dali mas fiquei preso ao chão como raiz de uma árvore, tão profundamente plantada que era impossível me tirar dali.
Eu sofri muito com a morte de "Tião" mas me resignei. De Aparecida fiquei muito tempo sem vê-la ou ter notícias. Continuava a estudar e agora com mais empenho, com fúria desmedida! Ansiava pelo saber, após as aulas percorria dois quilômetros de bicicleta, aquela mesma bicicleta de meu irmão falecido. Foi a "herança" que ele deixou para mim, segundo meu pai em seu leito de morte. Ia de bicicleta até a biblioteca da cidade para ler, devorava livros, lia Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles,Monteiro Lobato (meu preferido), Clarice Lispector, Jorge Amado,Goethe, Victor Hugo, Miguel de Cervantes, adorava ler Dom Quixote.

No meu subconsciente mesmo sem eu me dar conta, queria substituir Sebastião. Deixei de lado banhos de rio e como só tinha eu em casa durante quase todo o dia e boa parte da noite, pois meu pais depois do trabalho se enfiavam para dentro do "boteco" e ás vezes chegavam em casa "rabiscando o chão" com as pernas, de tão bêbados! O que me intrigava é que eles nunca perdiam a hora de acordar para ir ao trabalho! Quando o caminhão fazia a curva para entrar em nossa rua, com o barulho que todo caminhão velho tem, trazendo além de gente na boleia, os primeiros raios de sol do dia, meus pais já estavam prontos sob o alpendre encostados na varanda, e deixando o café pronto para mim. Vai entender.
Concluí o ensino médio e consegui imediatamente entrar para uma escola profissionalizante do governo de São Paulo onde só tinham quarenta vagas área, a minha colocação foi primeiro lugar, e o pai quando soube disto, quando soube por mim e pelos outros, subitamente do "nada" parou de beber. Comecei meu curso profissionalizante de Gestão do Meio Ambiente.
Arranjei um emprego na venda do seu "chico" que me garantia um dinheirinho no final do mês. Lá se vendia tudo, desde Mertiolate, pregos, cimento até cachaça. E eu podia conversar com as pessoas, tentar educa-las ambientalmente já que atendia muita gente na venda.
Pai parou de beber mas a mãe não, ela estava muito debilitada, não tinha conseguido absorver a morte três filhos, principalmente a de Sebastião e nem a fuga de Aparecida, já não ia mais trabalhar, não comia, muito embora na hora de meu almoço na venda, eu corria até em casa para dar de comida a ela, mas invariavelmente a encontrava no bar e era obrigado a traze-la á força para casa para alimenta-la, começou a falar sozinha, frases desconexas e sem sentido muito embora se ouvia claro e em bom som em uma dessas frases o nome de Sebastião. Sei dizer, que mãe foi definhando, definhando e um dia na hora do almoço fui direto ao bar para traze-la para casa e alimenta-la, mas ela não estava lá, "corri para casa e a encontrei deitada, com o banho tomado de vestido que ela só usava para ir a missa, um leve resquício de maquiagem, perfumada e com uma margarida no lado direito do cabelo, apoiado na orelha com os olhos serenamente abertos, só não respirava mais! À tarde daquele dia, parecia um mormaço de sol apino em que se dá uma preguiça e uma vontade "de fazer nada", e foi o que fiz, só fiquei olhando enternecido para minha mãe!
Pai chegou da roça e não se importou muito, ele podia não ser letrado mas conhecia a vida, sabia que mamãe não iria muito longe bebendo assim. Acho que no enterro eu vi uma lágrima em seu olho esquerdo, mas podia ser uma miragem, pois o sol abrasava os nossos "miolos" às duas da tarde.
Fomos para casa sem balbuciar uma palavra sequer, cada qual absorto em seus pensamentos e tormentos.
Vimos um carro na porta, o carro era um Corcel, com uma moça apoiada nele, uma moça nova, não tinha vinte anos. De óculos escuros, gargantilha de ouro no pescoço, colares e anéis.
Era minha irmã Aparecida, ela havia voltado como prometera para nos buscar! De carro, colares, anéis, eu presumo com muito dinheiro! Pai olhou fixamente para ela por uns dois intermináveis minutos, aquele olhar que se tem a impressão que vai "varar" o olho do outro de tão duro e cheio de reprovação e ao mesmo tempo de alívio.
Abracei minha irmã e me desabei em lágrimas! Lágrimas por Sebastião, por mãe, por ela, Aparecida, ter ressurgido e se materializando a nossa frente, mais bonita, mais Aparecida do que nunca, que só nos detemos neste turbilhão de sentimentos e lembranças, ao ouvir uma espécie de rugido gutural como um animal ferido e agonizante dando adeus à vida! Corremos para ver o que era e ainda deu tempo de ver os pés de papai balançando e uma ponta da corda retesa, presa numa das travas do alpendre e a outra em forma amarrada em forma de anel em volta de seu pescoço!


Não sabemos até hoje por que que papai se matou, pode ter sido por desespero pela morte de mãe, ódio pela volta de Aparecida por que viemos mais tarde a saber que papai sabia onde ela estava e o que fazia para ter "enricado" tão rápido sem ter casado ou amigado. Minha irmã apesar de ter nome de santa, era puta, e papai sabia, deve ser por isso que não admitia que tocassem no nome de Aparecida dentro de casa! Se pudesse queria extirpar esse nome da face da terra! Era um nome proibido de ser pronunciado até mesmo por mamãe!
Quem contou para papai sobre a real e verdadeira situação de Aparecida, foi um velho caminhoneiro que toda semana estava em São Paulo a passeio e para se deliciar a "comer umas putinhas novas" numa tal de Av. Indianópolis, ele comentou que Aparecida se destacava por aceitar até cartão de crédito, com certeza deve ter feito sexo com ela. Só sabemos que essa notícia ajudou a matar papai aos poucos! Foi como matar a "conta gotas", todos os dias através dos anos foi-lhe administrada uma dose de veneno diária, o pensamento o ódio matou papai! Não foi o remorso pela morte de Sebastião ou culpa por ter abandonado mamãe a própria sorte ou até raiva por não ter me dado a devida atenção após eu ter me esforçado tanto para ser igual a Sebastião.
Cheguei do trabalho às dezessete horas para tomar banho e me arrumar para o último dia de aula. Eu havia completado meu curso, era um técnico em gestão do meio ambiente, me lembro exatamente o dia, era dia vinte e nove de novembro de mil novecentos e noventa, uma sexta feira.
Enquanto tomava banho "viajava" em pensamento achava que Palmares Paulista era muito pequena para mim e já não fazia sentido estar ali. Foi aqui que perdi quase toda a minha família mas em contra partida foi aqui que trabalhei e me formei. Se tivéssemos ficado na Bahia teríamos morrido de fome. Mas queria trabalhar em minha profissão, ajudar a salvar o planeta, fazer uma faculdade de Engenharia Ambiental e quem sabe ganhar o mundo! Encontrar novamente minha irmã e tira-la das ruas, encontrar e casar com uma mulher decente que me amasse e me desse filhos, comprar uma casa de verdade para mim e sair dessa casa que só nos trouxe mais dor e sofrimento do que alegria! Nesse frenesi de pensamentos terminei meu banho e saí correndo só de cuecas para entrar em casa e me arrumar, quando vejo de soslaio o carro de Aparecida estacionado no portão. Já fazia oito meses que eu não à via, desde a morte da mãe e do desfecho trágico de pai, ela havia desaparecido novamente indo para São Paulo e continuado a "fazer a vida" segundo fiquei sabendo.
Entrei pela cozinha e dei de cara com ela e o amante, namorado ou cliente se beijando ! Um beijo com sofreguidão onde as línguas se misturavam se entrelaçando com volúpia! Mas em contra partida era um beijo terro, beijo de namorados, beijo de uma irmã que veio ao interior de São Paulo encontrar o irmão para contar que não era mais puta, que havia encontrado um homem que sabia da mancha em sua história mas estava disposta a aceitar, veio para a formatura do irmão com o belo presente de ter mudado de vida, e com uma vaga de emprego para o irmão à tira colo, pois sabendo de sua formatura através de contatos que ainda mantinha em Palmares Paulista, conseguiu um cargo de estagiário em uma grande empresa através do futuro marido. Não sei por que achei que esse homem que estava com ela era o tal caminhoneiro que havia contado para o papai da situação de Aparecida em São Paulo e momentaneamente fiquei louco, virei um verdadeiro animal colérico e

desci afoice Que era de papai! Primeiro em Aparecida, não sei por que, mas ela foi a primeira a ser atingida! Não posso precisar quantos golpes eu dei, depois ataquei o namorado de nome Humberto com tantos golpes que quase separei seu tronco do resto do corpo, tamanha era minha fúria e violência. Fúria da vida, fúria pela perda de meus irmãos principalmente de Sebastião, raiva de Aparecida, dó de maínhã que morreu bêbada de tanta raiva que tinha da vida que tinha.Papai dizia que menino não pode chorar e eu só chorei quando revi Aparecida no enterro de mamãe, não chorava, tinha que mostrar que era homem e homem não chora, não chora mas mata!
No julgamento e pela televisão é que fiquei sabendo realmente quem era Humberto e as intenções nobres dele, mas era tarde.
O advogado de defesa disse que eu estava "possuído" e que naquele momento eu não estava provido de minha consciência. Mas eu digo, eu agi com uma mistura de raiva-ódio e impotência.
Se tudo der certo e eu me portar bem, daqui à quatro anos e cinco meses eu vou serei solto, pois como atenuante eu tenho residência fixa sou primário, mas prefiro morrer, não me restou nada neste mundo, só ficou eu e os fantasmas que eu vejo toda noite na minha cela, uns chorando e outro querendo vingança.