Estava agora sentado a mesa de um
restaurante,e após o almoço fiquei distraidamente com os olhos a vagar sobre as
mesas vizinhas. Algumas pessoas estavam a almoçar e vendo o jogo de voleibol do
Brasil, outras conversavam sem prestar atenção ao jogo e outras simplesmente só
almoçavam. Estas últimas deviam estar com a hora de almoço contada! Uma hora de
almoço.
Vi duas meninas que estavam sentadas a minha
frente e não paravam de maldizer o emprego. Reclamavam e reclamavam! Com
certeza o ódio que elas destilavam era tão grande, que aquela comida não deve
ter caído muito bem!
Passou por mim um rapaz com o seu prato, que seguramente a hora
que ele sentasse o conteúdo de sua comida o deixaria invisível atrás dele.
Deveria estar seguramente com uns 15 meses de gestação se isso fosse possível.
Fiquei tão feliz por sentir-me magro ao observar aquela imensidão de barriga
sentada a poucos metros!
A minha esquerda uma moça com o prato repleto de alface, com mais
algumas folhas de alface para acompanhar, palmitos, tomates, beterraba e uma
Coca Cola zero. Se a intenção for uma dieta, fodeu tudo né? Beterraba tem
açúcar e a Coca mesmo sendo zero também tem. Eu já havia acabado de almoçar e
estava tomando o meu café tranquilamente quando deparo com uma senhora que
beirava os oitenta anos sentada quase no centro do restaurante. Fiquei atônito
pois a senhora estava muito bem vestida para aquela hora da tarde, usava um
vestido bege, bem clarinho, quase um creme. Unhas pintadas, cabelo muito bem
penteado para trás e formando formando um coque na parte posterior, uma gargantilha
com um pingente enorme tipo daqueles em que quando se abre, tem uma foto
dentro. Pude reparar em seus delicados dedos que ela usava duas alianças, muito
bonitas por sinal, ouro branco cravejadas com diamantes.
Essa senhora limpava a mesa com um lenço de papel
sistematicamente. Á todo instante lá vinha ela a limpar a mesa. Nisto, veio o
garçom com uma garrafa de vinho tinto. Pude notar que era um vinho Português,
lá da Ilha da Madeira, na garrafa vinha escrito Justino's Madeira e quase que
imediatamente veio um outro garçom servindo-a com a comida. Fiquei intrigado
pois vieram dois pratos, era uma bacalhoada, mas apesar de virem dois pratos,
só um foi servido, o outro ficou vazio no canto oposto da mesa, mas o vinho, o
garçom pôs nas duas taças, deixando uma a frente da senhora e a outra ao lado
do prato vazio.
Esperei calmamente a senhora terminar seu
almoço, pedi um pudim de leite de coco ao garçom, mas era só mais um motivo
para continuar no restaurante, aquela cena me instigava. Por que será que
aquela octogenária estava a degustar um vinho sozinha? Que mistério rondava
aquela mesa?
Pude notar, que caiu uma lágrima de seus olhos
que ela apesar da idade avançada, rapidamente enxugou. Seu olhar estava perdido
no tempo e no espaço. Ela estava presente ali, o seu corpo físico estava ali,
mas seus pensamentos estavam a vagar.
Não sei por quanto tempo fiquei a observar
esta cena, mas quando dei por mim a senhora me encarava fixamente! Seus olhos
violetas olhavam diretamente para mim. Fiquei muito constrangido, não sabia
para onde olhar, devo ter ficado vermelho, amarelo, preto, azul, sei lá, mudei
de cor tal o meu constrangimento! Ser flagrado como se fosse uma criança! Mas
para meu espanto, gentilmente a senhora me pediu através de gestos, que eu lhe
fizesse companhia.
Muito envergonhado me dirigi a mesa procurando
palavras para atenuar minha indiscrição e ao fazer o gesto de sentar-me a sua
frente, ela não deixou, impediu-me e pediu que eu me sentasse ao seu
lado, e foi o que eu fiz e escutei.
Meu filho, posso tratá-lo assim, pois você tem
idade para ser até meu neto, meu nome é Ana, e apesar da minha vista ás vezes
me pregar peças, notei que você me olhava todo o tempo. Você acompanhou o meu
almoço, minhas lágrimas e acho que até bebeu do meu vinho sequioso que estavas
a desvendar o que se passava aqui.
Sabe, papai do céu foi muito bom e generoso comigo. Deu-me uma
vida maravilhosa. Viajei muito, conheci centenas de pessoas de diversos países,
falo outras línguas e por incrível que pareça até sei mexer em computador,
apesar da idade. E além de tudo isso, conheci o amor, não o amor fugaz dos dias
atuais, mas o amor verdadeiro, a alma gêmea. Aquele amor que um não respira sem
o outro! Nós conhecemos na festa de Nossa Senhora de Fátima, na vila de Fátima
em Portugal, há setenta anos, Nessa época, eu tinha quinze anos, era uma
menina. Fiquei encantada com aquela figura, porte altivo, vastos bigodes,
sapatos bicolores muito bem polidos, relógio de bolso todo em ouro e um sorriso
deslumbrante e encantador, e uns olhos azuis da cor do oceano, que me fitavam
imensa e furtivamente e eu, encantada, acompanhei esse olhar.
Dei um jeito de sermos apresentados nesta festa, e seis meses
depois nos casamos.
Meu marido tinha uma vinícola no vale do Tejo
e os negócios não iam bem, Salazar era o presidente de Portugal e o país estava
entrando em um processo de transição e recessão. Meu marido resolveu arriscar,
vendeu tudo o que nós tínhamos, a casa e também a vinícola. Pegamos um navio e
viemos ao Brasil. Na viagem a esta terra maravilhosa, engravidei de Lourdes.
Meu marido ao chegar aqui, comprou um sobrado
imenso no centro da cidade do Rio de Janeiro, e na parte da frente do sobrado
construiu uma loja, uma sapataria, que vendia além de sapatos, galochas, guarda
chuvas, sombrinhas e chapéus que era muito em voga na época.
Os negócios pelo que
eu ouvia falar iam de vento em popa, estávamos tão felizes que meu esposo
resolveu nos dar uma viagem de presente, deixou a sapataria a cargo de um
funcionário da mais absoluta confiança e fomos a bordo de um navio a singrar os
mares. Eu, ele e nossa filha!
Voltamos de viagem
após quatro meses, mas viajamos mais uma dezena de vezes! Voltamos a Portugal,
fomos a Grécia a França, Marrocos, Cairo, Africa, Colômbia, Peru e Argentina.
Contrariando os
costumes da época, nossa filha estudava! Meu marido era muito além do nosso
tempo! Me atrevo a dizer que era um espírito de luz! Nunca me faltou nada, era
um carinho só, nossa filha era tratada como uma princesa e eu como uma rainha.
Fizemos uma pequena fortuna trabalhando, digo fizemos pois eu o ajudava na
loja, ele gostava, dizia que eu tinha jeito para os negócios e a minha presença
atraia senhoras a entrar na loja e fazer seus maridos gastar seus tostões.
Vivemos felizes
durante anos, Lourdes não quis se casar, sempre dizia que era muito cedo e que
seu príncipe encantado não havia ainda chegado, Eu e meu marido em tom de
brincadeira dizíamos que ela deveria ir a Fátima, talvez lá encontrasse o seu
príncipe, e ela respondia que o único que tinha lá, a sua mãe já havia
pego.
Aí veio a tuberculose.
Meu marido começou a tossir seco a suar em demasia, cansaço, febre noturna e em
pouco tempo a tosse começou a vir acompanhada de um catarro com pus e sangue.
Lourdes não o deixava um minuto sequer sozinho, sempre acompanhando o pai. Eu
ficava na loja uma pequena parte do dia, mas quem cuidava da loja era um
funcionário exemplar, o mesmo que cuidava quando nós viajávamos para o
exterior.
O médico veio a nossa casa, o examinou, e
pediu que fossemos ao hospital para tirar um raio x.
No dia seguinte nós fomos e ficou
constatado que era tuberculose. O tratamento na época para quem podia, era
mandar o doente a Petrópolis num sanatório, para que com repouso e o ar puro se
curasse, e assim foi feito.
Agora eu sei que isso
era totalmente errado, pois esse sanatório era o lugar ideal para o bacilo se
desenvolver. Diversos doentes, uns no estágio mais avançado como meu esposo,
outros no início da doença.
Compramos uma casa em Petrópolis para
ficar mais próximo ao sanatório, pois a viagem era muito cansativa. Ele ficou
internado quatro vezes neste lugar, ia e voltava. e cada vez definhava mais,
Lourdes começou a apresentar os mesmos sintomas, só que para ela a doença foi
mais devastadora. Coitada de minha filha e de meu marido, estavam só pele e
osso. Nos últimos dias eles estavam em casa, em Petrópolis, não havia mais o
que fazer. Coloquei duas camas de solteiro em um dos quartos da frente e era o
quarto deles, pois era o mais arejado e ventilado da casa e existia um grande
jardim no quintal a direita aonde as flores deixavam seu perfume entrar pela
casa. Minha filha não queria se separar do pai nem por um minuto, em outra vida
devem ter pedido para virem pai e filha e com muito amor para dar um ao outro,
tamanha era a abnegação da "menina" a cuidar do pai, mesmo estando
ela também doente.
Numa manhã de agosto,
nos primeiros dias, ao entrar no quarto, descerrei as cortinas, abri as janelas
para entrar ar, já que fazia um dia lindo naquela manhã, Como a noite foi um
pouco fria,as plantas ainda estavam com orvalho, o aroma delicioso das rosas
entrou tênue pelo quarto. Estavam abraçados, pai e filha, com uma expressão
doce no semblante, uma expressão de tranquilidade, serenos, dormindo, A
impressão que tive é que eles estavam mais joviais, Lourdes parecia uma
criancinha! Estava na posição fetal com a mão repousada sobre o peito do pai!
Os bigodes dele estavam mais brilhantes e ele parecia ter remoçado uns tantos
anos, parecia o homem que me enamorei há muitos anos lá em Portugal. Os chamei
uma, duas, três, uma dezena de vezes sem ouvir respostas ou um murmúrio sequer.
Estavam mortos!
Por isso você me viu aqui neste restaurante!
Todo dia dos pais eu venho aqui. Esse era o restaurante que nós frequentávamos.
Procuro sentar no mesmo lugar e me deixo viajar no tempo! A taça de vinho que
está ao outro lado da mesa, é como se fosse uma personificação, eu o sinto
perto! Sinto minha Lourdes ao meu lado! Eles eram tão achegados, tão próximos
um do outro e nós éramos tão felizes, que venho a este restaurante secular há
cinquenta e cinco anos eu quase posso senti-los, se eu fechar os olhos posso
até toca-los!
Esse dia é o meu dia do ano! Na minha
cabeça de "velha", é o dia que eu acho que eles tem permissão de
papai do céu para vir estar a meu lado. Como você mesmo viu, eu ás vezes choro,
mas é só saudades. Não me casei novamente, e não foi por falta de pretendentes.
É que casando com outra pessoa, eu não conseguiria ser fiel em meus
pensamentos, pois eles vagariam buscando meu amor do passado. Amor meu filho,
amor verdadeiro, só se tem uma vez, o resto é só bobagens, ou como vocês dizem
agora, é só tesão. não é esta a palavra usada nos dias de hoje?
Antes que você me pergunte, esse prato
vazio a mesa do lado oposto ao meu, não é superstição ou qualquer outra coisa
sobrenatural, é que o garçom que me serviu é novo na casa e achou que eu viria
com alguém.
Satisfeito, ou ainda
acha que eu sou uma "velinha meio doidinha"?
Fiquei atônito ao
ouvir essa história tão linda e emocionante de amor! Um amor incondicional que
quase atravessou um século!
Me despedi da dona Ana, enxuguei umas
lágrimas que teimavam em rolar e pensei comigo.
Como essa mulher foi feliz!!
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