terça-feira, 21 de agosto de 2012

Número 77

       Aquele pigarro parecia uma senha. Senha para calar, senha para falar. Tinham tantos significados, aquele simples pigarro, podia até ser um pigarro de alguém que fumava a tantos anos. Ás vezes, era um pigarro para chamar a esposa ou a filha.
Poucos entendiam o significado, ou a senha, mas eu sabia, e me considerava um privilegiado por entender.
       Eu era um menino-homem quando adentrei aquela casa pela primeira vez, conheci-o. Era um homem sério com aparência de um mafioso. Baixo, calvo com bigodes, quase não falava mas muito observador, nada passava incólume aos seus olhos. Diria que o senhor Amaral parecia uma Águia a observar a sua presa. Mas era só impressão! Era um doce de criatura, e meu amigo!
       Casado com dona Ruth, uma mulher bem a frente do nosso tempo. Uma mulher que antes de você pensar, ela já sabia a resposta da pergunta que possivelmente você iria fazer! Manja? Tiveram uma filha, Irani, que seguia os mesmos moldes da mãe, perspicaz, inteligente e com uma facilidade incrível de fazer amigos! Vou ser honesto, toda aquela galera que se reunia á sua porta, e era muita gente! Parava ali ou por uma piadinha da Irani ou da dona Ruth (eram mestres nisso), mas tudo supervisionado pelo pigarro do seu Amaral! Dependendo da intensidade do pigarro se definia se a pessoa prestava ou não.
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       A casa era esta, a que está com uma Amendoeira plantada e tem um carro preto a frente.
       Meu amigo costumava encostar nesse muro e ficar horas conversando, dando ensinamento de vida, passando experiência tão útil para nós, meninos-homens. Ás vezes sentava numa espécie de mureta que ficava dentro de casa, uma varanda, ornada com azulejos azul marinho, a enrolar o seu cigarro de palha e dando conselho, mostrando o caminho certo a ser seguido.
       Tinha quando era mais novo o apelido de "china" pois parecia um chines, mas só nos olhos, que eram meio puxados. Quando estava na ativa era uma espécie de Radioamador, só que o nome da profissão eu não lembro. Era Maçom, e o que era permitido ele ensinava pra gente, Deus para ele, era o grande arquiteto do universo, eu escutei isso do seu Amaral á exatamente vinte e nove anos, e isso ficou na minha cabeça até hoje, e eu acho a mais pura verdade.
       Depois de alguns anos e diversas brigas com meu pai, fui colocado para fora de casa e aquela família me acolheu e eu morei lá por um bom período. Eles não eram ricos, seu Amaral era aposentado e dona Ruth para ajudar fazia as unhas das mulheres da vizinhanças, mas eles me acolheram para eu não dormir na rua! Eram um tipo de pessoa que não se encontra mais, meus amigos!
       As sextas feiras, reunia-se muita gente nesta varanda da foto para cantar, escutando o violão tocado pela Irani, pela Walquíria e por quem mais chegasse. Muitos namoros começaram e terminaram nesta varanda.
       Seu Amaral e dona Ruth eram uma espécie de "pais" de toda essa gente incluindo eu, éramos tipo "capitães da areia".
 




Seu Amaral é o "jovem" calvo e dona Ruth está ao lado dele com Irani ao colo.












Essa morena de fazer Copacabana literalmente parar, é a dona Ruth.












        Aprendi muito da vida com essa dupla, principalmente com seu Amaral! Seus concelhos sobre mulheres eram imbatíveis, se seguisse a risca era fatal! Aprendi a ser galanteador a saber como tratar as mulheres com ele.
       No início do casamento eles moraram na rua Constante Ramos em Copacabana, imagino o "salseiro" que esse rapaz arrumava com as "moçoilas" da época, pois apesar de ser ter uma estatura baixa, era belo, encantador, e se deixassem ele falar, fodeu! E dona Ruth não preciso nem comentar, a foto dela já diz por si só! Era linda! Quando eles mudaram para o bairro Encantado, Copacabana nunca mais foi a mesma!
       Tinha seu lugar sempre na cabeceira da mesa virado para a rua. Engraçado, nunca vi seu Amaral dentro de casa, sentado em outro lugar que não fosse esse, nunca o vi por exemplo sentado no sofá. Era sempre á mesa,e sentado na cabeceira, camisa levemente aberta conversando e olhando a rua
       
Quando escuto essa música lembro dele.
       Agradeço muito a Deus, ou como ele dizia, ao grande arquiteto do universo, por ter passado naquela rua, naquele número o 77 e ter parado. Pois se não parasse, não teria conhecido essas pessoas maravilhosas que tanto contribuíram para a minha existência terrena.
       Eu não era seu filho, mas só no seu pigarrear eu já entendia o que ele queria dizer. Agora eu imagino uma mesa na sala, e o seu lugar na cabeceira vazio. E o que me doí, é que eu nem fui me despedir dos meus amigos.
       " Eu não sabia que doía tanto uma mesa num canto uma sala e um jardim"
         
        
































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